Alzheimer: Doença “não tem cura”, mas pode ser gerida
Pode ser difícil perceber a diferença entre as mudanças inerentes ao envelhecimento e os primeiros sinais da doença de Alzheimer.

A perda de memória é uma característica natural do envelhecimento, mas quando começa a perturbar a vida quotidiana da pessoa, já não estamos a falar de algo natural, mas sim daquilo que poderá ser um sintoma de demência.
A VTM foi tentar compreender melhor esta doença, que é, cada vez mais, frequente em todo o mundo.
Ana João Marques, neurologista na Unidade Local de Saúde de Trás-os-Montes e Alto Douro (ULSTMAD), revela que a Alzheimer é uma doença que não tem cura, mas, hoje em dia, pode ser gerida. “Se até há 20 anos era uma doença com uma sentença quase de uma debilidade muito precoce e de uma mortalidade muito elevada, hoje em dia é possível viver-se com Alzheimer até mais tarde e com mais qualidade”.
A médica explica que uma investigação recente apresentou fármacos que poderiam curar mas, infelizmente, não curam. “São estratégias promissoras para alguns doentes em fases mais precoces da doença. São uma luz ao fundo do túnel que expressa que há muito para ser feito na gestão, otimização terapêutica nestes doentes, e que permite que a Alzheimer já não seja aquele bicho-papão que rapidamente deixa os doentes muito dependentes”.
“A Alzheimer já não seja aquele bicho-papão que rapidamente deixa os doentes muito dependentes”
ANA JOÃO MARQUES – NEUROLOGISTA
Sendo a Alzheimer a forma mais comum da demência, não a única, há fatores de risco que são conhecidos, nomeadamente a hipertensão, a dislipidemia, a obesidade, a diabetes mal controlada, o sedentarismo, que quando otimizados na sua gestão, conseguimos prevenir ou chegar mais tarde à Alzheimer, sublinha Ana João Marques, adiantando que há ainda fatores socioeconómicos e socioculturais que podem ajudar a controlar a doença, como a “integração social, as atividades de rotina, a integração em centros de dia, paroquiais ou recreativos, ter um ambiente familiar de promoção da autonomia e de alguma liberdade”.
A neurologista refere que há sinais que nos indicam que estamos perante a doença e aos quais devemos estar atentos. “A falha de memória, a capacidade de planear, o medo de executar tarefas, a linguagem, o comportamento, o humor, não conseguir ir às compras sozinho, não saber que medicação tomar ou não fazer as lides domésticas”, são alguns exemplos apontados, frisando que estas pessoas devem recorrer a uma avaliação médica.
Segundo Ana João Marques, a Alzheimer tem “formas hereditárias, mas são raras”. No entanto, quando “falamos de doenças hereditárias do ponto de vista simples, existem formas geneticamente determinadas de Alzheimer, ou seja, a pessoa tem a mutação genética que confirma um risco que pode ser passado para uma geração vindoura, mas são formas muito incomuns”.
“Existe uma tendência familiar para a Alzheimer, embora eu possa ter um pai e uma mãe que tiveram Alzheimer, isso não configura por si um risco acrescido”. Depois, há a considerar ainda que quando “falamos de alguém que tem Alzheimer já com 80 anos, não configura um risco crescente num filho. Diferente é ter alguém que diz que teve a mãe ou um pai que com 55 anos tiveram Alzheimer. Aío risco é diferente e distinto”, explica.
Além disso, a Alzheimer é uma doença mais comum nas pessoas mais velhas, mas também pode acontecer às mais novas. “A Alzheimer é uma doença neurodegenerativa e tem uma epidemiologia de crescimento com a idade. Também é certo que nós sabemos que a partir dos 80 anos, uma em cada quatro pessoas, terá Alzheimer”.
Apesar de ser uma doença da população mais idosa, é uma doença que, do ponto de vista da fisiopatologia, começa muito mais cedo. “Quando nós vemos o diagnóstico clínico de Alzheimer, já estamos a falar de uma doença que tem uma expressão subclínica de 15 a 20 anos anteriores. Ou seja, é uma doença que até começa na meia-idade”.
E como se deve lidar com um doente de Alzheimer? Para a médica, o cuidador é, muitas vezes, a pessoa que é chamada à discussão em último lugar e isso não deve acontecer. Tem que ser envolvida mais precocemente, quer para o diagnóstico, quer para o acompanhamento.
Para Ana João Marques, o cuidador deve promover a autonomia, a liberdade, como se fosse uma criança. Ou seja, uma “liberdade em que a pessoa pode e deve sair de casa, mas com vigilância. Não deve ir sozinha a um campo e ficar lá abandonada. Não deve ser deixada no meio de uma cidade, porque se pode perder”.
Outras tarefas que estava habituado a fazer, deve continuar a fazê-las, mesmo que faça mal. “Se gostava de fazer a cama, pode ficar mal feita, mas não faz mal. Aquela é a sua missão. E estas tarefas contribuem para a dinâmica familiar. É importante que o doente não se sinta um fardo, porque muitos têm consciência de que o são e isso afeta-os”.
“Há coisas que vão ser difíceis, mas o importante é o doente sentir-se integrado, participar em atividades da comunidade e do grupo onde está inserido”, conclui a neurologista.

